Mesmo sem El Niño, brasileiro deve se preparar para futuro com mais calor

Para cientista, período atual é amostra do que apontam projeções climáticas para o país nas próximas décadas

jovem negro, sem camisa, joga água na própria cabeça usando balde de metal

Wellington Rodrigues, morador do Rio de Janeiro, usa balde d’água para se refrescar em meio à onda de calor – Gabriel de Paiva – 13.nov.2023/Agência O Globo
JÉSSICA MAES
FOLHA DE S.PAULO
SÃO PAULO – Após meses de sucessivos recordes de temperatura em todo o mundo, uma nova onda de calor vem castigando os brasileiros. Situações como a registrada no Rio de Janeiro nesta terça-feira (14), onde a sensação térmica bateu 58,5°C na zona oeste da cidade, devem ser cada vez mais frequentes no futuro.

Os cenários traçados pelos cientistas para o país num planeta que está esquentando —devido às emissões de gases de efeito estufa vindas das atividades humanas— são de períodos mais longos de tempo mais quente e seco, além de temperaturas mais altas.

“O Brasil, como uma região tropical e um país muito vulnerável às mudanças climáticas, vai sofrer mais com o aumento da temperatura”, aponta Paulo Artaxo, físico da USP e membro do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), vinculado à ONU.

As previsões do IPCC colocam que a temperatura do Brasil, de acordo com o cenário das emissões, pode ter um aumento, em média, da ordem de 4°C”, diz o pesquisador.

Artaxo destaca a previsão do painel de cientistas da ONU para um aumento da temperatura de 3°C, que é o projetado caso não haja um corte drástico nas emissões. “Um evento climático que ocorria uma vez a cada 50 anos vai ocorrer 39 vezes a cada 50 anos e vai ser 5 vezes mais intenso”, afirma.

Ele aponta, ainda, que essa previsão é especialmente preocupante para países tropicais, que já têm temperaturas mais elevadas do que o restante do globo.

“Isso vai impactar a saúde da população e o funcionamento dos ecossistemas [no Brasil] muito mais do que países como a Suécia ou a Noruega”, explica. “Imagina o impacto de um aumento de 3°C a 4°C em uma região, por exemplo, como Teresina, Cuiabá ou Palmas?”

Falando sobre o calor intenso que atinge o país neste ano, o físico afirma que é possível apontar dois fatores como os principais responsáveis: o aquecimento global, que aumenta a frequência de eventos climáticos extremos, e o El Niño –que, por sua vez, é agravado e se torna mais frequente com o aumento da temperatura da superfície do mar causado pelas mudanças climáticas.

O El Niño é causado pelo aquecimento do oceano Pacífico tropical (na região da linha do Equador) e eleva temperaturas, especialmente nas regiões Norte e Nordeste, no país. Ainda que os meteorologistas saibam que o fenômeno é um dos culpados pela atual onda de calor, é importante lembrar que para algumas partes do Brasil, como o Sudeste e o Centro-Oeste, o comportamento do El Niño nem sempre se traduz em calor.

“O que nós estamos vendo é o futuro do clima no país, e o país, obviamente, tem que se preparar melhor para enfrentar essas ondas de calor”, adverte Artaxo.

Segundo o Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia), essa é a oitava vez que uma onda de calor atinge o país só neste ano.

Um estudo sobre os calorões de agosto e setembro, que fizeram a temperatura chegar a 41,8°C em Cuiabá e a 43,5°C em São Romão (MG), mostrou que as mudanças climáticas aumentaram em até cem vezes a chance de um calor extremo como esse ocorrer. O El Niño, avaliaram, teve uma contribuição pequena naquele período.

Sem o aquecimento global causado por humanos —associado, essencialmente, à queima de combustíveis fósseis, mas também a ações como o desmatamento— o calorão no final do inverno e no começo da primavera no Brasil teria sido de 1,4°C a até 4,3°C menor, segundo o trabalho.

A análise foi feita pelo WWA (World Weather Attribution), que estuda as causas de eventos climáticos, e teve participação de Lincoln Alves, pesquisador do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).

Ele explica que não é totalmente possível aplicar os resultados encontrados no estudo para o fenômeno atual, já que ele foi feito com base nas condições encontradas naquele momento anterior.

“[Mas,] em geral, o que tem se observado nas diversas regiões do mundo e no Brasil é que as ondas de calor estão bastante relacionadas à mudança do clima e ao aquecimento global”, acrescenta.

Ele frisa que há um aumento do número e da intensidade dos períodos de calor nas últimas décadas e que isso é um forte sinal da crise climática. Um levantamento do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) divulgado nesta segunda-feira (13) mostrou que, em 30 anos, as ondas de calor no Brasil aumentaram de 7 para 52 dias ao ano.

Além de impactos ambientais e socioeconômicos, o calor extremo tem impacto direto na saúde das pessoas, podendo levar a problemas cardiovasculares, respiratórios e renais.

‘NOVO NORMAL’ DO CLIMA?

Diferentes centros de pesquisa apontam que é praticamente certo que 2023 será o ano mais quente em 125 mil anos, seguindo vários outros recordes do índice nas últimas duas décadas.

Assim, muitos se perguntam se esse cenário é o “novo normal” climático.

“Não podemos chamar um clima como esse que a gente tem agora de ‘normal’. Isso é uma situação totalmente anômala, com aquecimento muito pronunciado e que tem impacto socioeconômico muito grande. Mas o que nós estamos vendo atualmente, em 2023, é uma amostra grátis do que pode acontecer ao longo das próximas décadas”, opina Artaxo.

“Os modelos climáticos sempre previram um aumento da temperatura global, só que nós estamos observando que a realidade da mudança climática está sendo ainda mais forte do que os modelos previam.”

Alves também aponta que, comparado a décadas anteriores, o clima não é mais o mesmo. “As condições climáticas, as temperaturas médias, o volume de chuva, a intensidade das chuvas, tudo isso mudou. As estações têm se tornado cada vez mais quentes”, afirma o pesquisador do Inpe.

A percepção de que 2023 pode ser o mais frio dos anos futuros, caso não haja um corte substancial na quantidade de carbono jogada na atmosfera, é compartilhada por cientistas ao redor do mundo.

“A menos que fechemos a torneira das emissões de gases de efeito estufa na atmosfera, 2023 parecerá frio quando estivermos em 2033 ou 2043”, afirmou Samantha Burgess, vice-diretora do Serviço de Mudança Climática do observatório europeu Copernicus, quando julho de 2023 foi anunciado como o mês mais quente já registrado na história.

“Precisamos ter uma ação climática ambiciosa para cortar emissões, estabilizar nosso clima e garantir que ele permaneça habitável não apenas para as pessoas, mas para todos os ecossistemas ao redor do mundo dos quais dependemos”, acrescentou.

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